Prof. Valdeilton

DEPOIMENTO

Meu nome real é Valdeilton Oliveira, mas sou conhecido como Tama desde o meu primeiro semestre no curso de japonês. Tenho atualmente 28 anos e hoje sou professor na UnB-Idiomas.

Entrei no curso de letras japonês no segundo semestre de 2004 e me formei em 2009, Exatamente cinco anos depois de entrar. Tenho atuado como professor de japonês desde 2008 e isto tem sido minha fonte de renda principal. Em 2010, iniciei como professor na UnB idiomas, onde tenho trabalhado desde então. Além disso, faço também alguns trabalhos extras como guia turístico, tradutor e intérprete.

Para ser bem sincero, antes de entrar no curso eu não sabia nada sobre o idioma japonês. Admito que tinha muito receio pela falta de conhecimento, tanto do idioma quanto de qualquer coisa relacionada à vida acadêmica. Eu tinha a intenção de aprender o idioma e talvez complementar com outro curso em que pudesse fazer uso do idioma ou algo parecido. Como não tinha muito conhecimento sobre a área, não tinha expectativas concretas de como utilizar meu diploma e muito menos conhecimentos em outras áreas que ajudassem em qualquer carreira. Entrei no curso com alguns gostos específicos: Mangá, videogames e música japonesa. Porém hoje percebo que mesmo esse conhecimento era limitado.

A primeira aula foi para mim um choque absoluto e total. Na minha turma existiam alunos com todos os níveis possíveis de conhecimentos sobre o idioma. Desde eu, aluno com conhecimento zero, até alunos com dupla nacionalidade que estudaram no japão por alguns anos.

Com o passar do tempo me dediquei aos estudos, quase que cegamente, e consegui aproveitar as oportunidades que apareceram. Em 2008, ganhei minha primeira bolsa de estudos e desde então tenho trabalhado exclusivamente com a língua, atuando como professor, tradutor ou intérprete. Já trabalhei em muitas das escolas de Brasília que oferecem japonês. Desde que comecei a trabalhar, consegui ver que existem de fato possibilidades de mercado em Brasília, seja como professor, tradutor, intérprete ou até guia turístico. Existem várias escolas e há a constante demanda de alunos interessados em aprender o idioma.

O bom fluir de qualquer carreira, entretanto, depende muito da qualificação do professor. Além do japonês, ajuda muito aprender outros idiomas e adquirir conhecimentos em outras áreas, como linguística ou pedagogia.

De minha turma, formaram-se 3 alunos. Dois com ascendência japonesa e eu, que comecei do zero. Sem dúvida é um curso em que há muitos que desistem mas que ao mesmo tempo abre muitas portas. Cheguei a passar momentos de dúvida sobre a escolha do curso e tive também grandes dúvidas sobre a escolha da carreira, chegando a titubear em muitos momentos, mas tive o apoio de professores maravilhosos que me incentivaram e mostraram diversas possibilidades, o que me auxiliou a vencer as incertezas.

Em 2008, participei pela terceira vez do Concurso Regional de Oratória em Língua Japonesa, concurso que avalia a fluência do candidato, através de um discurso de aproximadamente 3 minutos. Isso pode parecer pouco, mas são duas páginas inteiras de texto. Em todas as vezes que participei desse concurso me empenhei em confeccionar um texto original e treinar a sua oratória. Na terceira vez em que participei, finalmente fui o vencedor em minha categoria na etapa regional, sendo convocado para a etapa nacional alguns meses depois. Admito que naquele momento eu não tinha a menor vontade de competir. Estava atolado com as matérias do final do curso, em especial “Projeto de Curso”. Além disso, como priorizei a amizade e cheguei em São Paulo mais interessado em fazer novos amigos que competir.

Apenas os vencedores das respectivas etapas regionais participavam do concurso. Assim, todos participantes tinham grande fluência no idioma. Os temas apresentados variavam de assuntos complexos como “Ninjutsu” e “Câncer” a divertidos como “copo de requeijão”. Além de apresentar meu discurso, fiz amigos, me alimentei bem (e quem me conhece sabe a importância que dou a isso em minha vida) e tive a honra de ser o campeão nacional. Ainda hoje tenho dificuldade em acreditar como uma atividade tão simples: escrever um texto e treinar sua oratória, pode ser algo tão profundo e assumir dimensões tão grandiosas. Desde então, tenho incentivado meus alunos a também participar do concurso.

A língua japonesa possui algumas características únicas se comparada às outras. Listarei aqui as duas que mais percebi nessa jornada como aluno.

A primeira é a quantidade de contato com a língua. Temos poucas chances de falar em japonês no cotidiano brasileiro, exceto para famílias de descendentes. Temos pouco contato com qualquer material que não seja, de alguma forma, moldado pela cultura pop e há poucos textos para leitura além dos materiais didáticos.

A segunda característica é a alta necessidade de esforço e disciplina. Por melhor que seja o material o treino de kanji é obrigação do aluno e deve fazer parte da rotina do estudante.

 Para superar as dificuldades de aprendizado existem hoje recursos notáveis. Primeiramente, a internet é uma fonte quase infinita de material. Existem toneladas de apostilas e material em áudio que pode ser adquirido em fóruns. Além disso, em   sites como o youtube é possível acessar vídeos adequados para quase todos os níveis de estudantes, o que permite horas de contato direto com o idioma. Há também sites que permitem conversar com pessoas no Japão. Existem também aplicativos para celular que permitem o treino de vocabulário e kanji.

Refletindo sobre minha perspectiva inicial, não vejo mais o estudo da língua japonesa como algo realmente complicado mas sim trabalhoso. Para viabilizar isso é necessário organizar os estudos: Criar rotinas com horários definidos e objetivos claros também é importante. Apenas acompanhar o material didático pode ser simples mas fazer todas as atividades de todos os materiais relacionados ao curso nem sempre é. O aprendizado de japonês precisa de treino e disciplina porém recompensa quem consegue.

Se eu fosse indicar dicas para incentivar os alunos acredito que seria algo mais ou menos assim:

  1. A) Tenha objetivos específicos em relação ao idioma “Quero expressar meus sentimentos de hoje” “Quero conseguir comprar um big mac e pedir para colocar mais queijo” “Quero pegar um ônibus olhando as placas”.
  2. B) Tenha disciplina: organize seus materiais e viabilize o acesso rápido a aplicativos de tradução e de kanji; faça revisões frequentes e tente utilizar o conteúdo em situações reais fora do contexto de sala de aula.
  3. C) Tenha amigos para compartilhar suas conquistas: Fale em japonês com os colegas de aula, se possível fora da faculdade e utilize esse ciclo de amizades para tirar dúvidas.
  4. D) Não tenha medo: Por mais pavoroso que o estudo possa parecer, outros alunos já passaram pelo momento que você está passando, seja ele qual for. É claro que surgem dúvidas, mas a segurança obtida na disciplina nos estudos supera grande parte disso. Se restarem dúvidas, não hesite em procurar seus professores. São pessoas maravilhosas com histórias de vida semelhantes à sua e que saberão te indicar um bom material de estudos.

 Acredito que o ser humano que sou hoje é totalmente diferente do que entrou na faculdade há mais de 10 anos. Tive a oportunidade de viajar duas vezes ao Japão, ambas com bolsa de estudos. Para uma pessoa que sempre estudou em colégio público e viveu algumas das dificuldades características de quem mora na periferia, considero isso um feito e tanto. Tenho orgulho das minhas conquistas e isso sempre me dá força para continuar buscando mais.

Minha estada no Japão influenciou, e muito, a pessoa que sou hoje. Os valores humanos que aprendi e vivenciei, as amizades que tive e as experiências que passei (desde ver neve até escutar bronca do chefe) me tornaram uma pessoa melhor e mais segura.

Sou eternamente grato ao curso de letras japonês pelas mudanças que me levaram a ser quem sou hoje. Certamente existirão problemas, como em qualquer jornada mas aprendi no Japão que certos prazeres compensam certos desafios.

Tive esse sentimento ao viajar pra Nara. A antiga capital do Japão é conhecida por seus templos antigos e um dos mais famosos é o Toudaiji, dentro do qual há uma estátua de buda de 15 metros. Ao chegar no templo vi a neve pela primeira vez e tive certeza de que o esforço de cada dia de estudo foi recompensado. Todas as dificuldades não pareciam nada comparadas à magnitude do templo e da experiência que vivi. Essa experiência mudou minha vida, mudou minha forma de analisar muitas coisas. Tudo isso só foi possível após a superação dos medos iniciais, a organização dos estudos e a dedicação ao idioma e ao curso.