Prof. Marcus

DEPOIMENTO

Meu nome é Marcus Tanaka de Lira, e essa é a minha história.

Entrei em 2003 no curso de letras japonês, e estudei por nove semestres. Consegui me formar no fluxo porque, diferente da maioria dos outros professores do curso de japonês, nunca estudei no Japão, então foi um atraso a menos. Aliás, talvez eu deva dizer logo que a minha história seja um pouco diferente: meu objetivo principal não era estudar sobre o Japão como país, mas estudar japonês como língua. Por causa dessas e outras, eu acho que teria sido uma boa estudar no Japão (tanto é que eu detenho o provável recorde de quatro aprovações em processos seletivos sem nenhuma ida), mas em geral existia um choque entre o que eu queria pesquisar e o que eles queriam que eu pesquisasse. Não ia mudar meu objetivo por nada.

Assim, um semestre depois de me formar, comecei a dar aula como professor substituto da UnB. Primeiro por dois anos durante o mestrado. Depois por um ano e meio durante o doutorado. Agora eu estou na vaga de reserva pra ser professor do quadro, e devo começar em breve. Yay!

Eu entrei no curso querendo ser linguista, e eu achei que estudar japonês seria uma boa porque eu teria conhecimento em como lidar com uma língua que não tem parentesco algum (até onde se sabe) com o português… E aí fui com tudo. No primeiro semestre tirei o 4-kyuu (N5 de hoje), no segundo semestre (depois de outro semestre parado por motivos pessoais) tirei o 3-kyuu (N4 de hoje) e fui tirando SS nas matérias de japonês até começar a notar que tinha alguma coisa errada. No final do segundo ano, a professora perguntou em sala o porquê de eu ter conseguido tirar SS numa prova em que a turma ficou com MM ou menos; quando eu expliquei como eu tinha estudado, ela reclamou que os alunos não sabiam linguística. No final do terceiro ano, o professor simplesmente me liberou das aulas porque a média da turma na primeira prova tinha sido MI, enquanto eu tinha tirado SS.

Comecei a ver que os professores tinham um limite no nível até o qual eles podiam levar as aulas e, se eu me contentasse a tirar SS, talvez eu não fosse me tornar nem um bom aluno de japonês (já que eu seria só um bom aluno praquelas matérias) nem um bom aluno de letras, que era o meu objetivo pra ser linguista. Nisso, eu pirei. Vi o quanto meu conhecimento em linguística (pra lidar com dados) e filosofia (pra lidar com argumentos) eram fracos. Corri pra fazer mais matérias das duas áreas, e consegui uma orientadora pra PIBIC – uma coisa que era desconhecida pra mim porque, na época, não tinha quem orientasse na área de japonês. Isso ampliou minhas possibilidades de uma maneira que, mesmo indo de frente com o governo japonês, pude continuar meus estudos por aqui.

Sempre tentei estudar japonês aceitando o fato de que a língua é como ela é: No lugar de tentar explicar em português ou gramaticalmente, se “watashi wa udon ga suki desu” significa “Eu gosto de udon”, eu aceito que a estrutura é “Gostador wa gostado ga suki desu” e pronto. No início, não me importa se é sujeito, tópico, Mateus, o que for. É assim e pronto. Só depois, quando eu senti que já consigo usar, é que eu tento explicar o porquê. Eu sempre tentei conversar ao máximo em japonês com quem quer que fosse… Exceto com a minha esposa que, por motivos inexplicáveis, tenho a tendência de falar em portunhol. (¡Sí, en serio!)

Outra coisa que ajudava também era estudar outras línguas. Eu peguei o jeito com partículas, acho, porque já tinha estudado russo no segundo grau (e conversava com uns amigos da embaixada). Comparado àquelas declinações irregulares, partícula é super fácil.

Se eu tivesse que deixar uma mensagem pros alunos, é a de que é responsabilidade de cada um fazer a própria história, independente do que acontecer. É claro que vão surgir obstáculos e pessoas que vão ser contra você por se meter na vida alheia. Sempre tem um lazarento que vai saber o que você tem que fazer melhor do que você mesmo – exceto pelo fato de que a pessoa não sabe onde você quer chegar. Não fica naquela de que o mundo é um lugar justo em que pensamentos positivos e sonhos multicoloridos vão te fazer viver num reino mágico de amor e fantasia. É com suor e sorte que se chega lá. Enquanto você estiver sem sorte, continua suando. Quando a sorte bater, pelo menos você vai estar preparado.

Gambareia aí, gurizada!