Prof. Fausto

DEPOIMENTO

Sou Fausto Pinheiro Pereira. Atualmente faço parte do quadro permanente de professores do curso de licenciatura em letras-japonês da Universidade de Brasília

Ingressei na universidade em 1994, antes do início do curso de licenciatura. Na época era aluno do curso de economia e comecei a estudar japonês como disciplina optativa: eram as disciplinas de língua japonesa 1 a 6, que ainda são lecionadas. Justamente após ter concluído a última disciplina oferecida como optativa fui avisado de que o curso de licenciatura seria iniciado, no primeiro semestre de 1997. Como tinha interesse em prosseguir com o estudo da língua e, desde antes estava considerando mudar de curso, achei a oportunidade apropriada. Assim, junto com outros colegas ingressei na primeira turma do curso de licenciatura. Em 1999 fiz intercâmbio de um ano na cidade de Joetsu, província de Niigata e, após retornar cumpri os créditos restantes, me formando em três semestres. Com mais seis colegas, fiz parte da segunda turma a se formar no curso. Pouco tempo depois, fui agraciado com a chance de ingressar o corpo docente, como professor substituto, onde lecionei por três semestres, até 2003, quando novamente fui ao Japão, desta vez para realizar o curso de mestrado na Tokyo University of Foreign Studies. Retornei em 2007 e no ano seguinte, novamente pude retornar à UnB como professor substituto. Após ser aprovado em concurso de professor assistente, fui integrado ao quadro permanente em 2009, onde permaneço desde então.

Muito antes de iniciar meus estudos em língua japonesa já tinha grande interesse na cultura pop japonesa e também em mangás e anime, assim como muitos outros alunos que ingressam no curso. Meu conhecimento de língua, entretanto, era virtualmente nulo: fora uma ou outra expressão mais conhecida, como arigatô, sayônara, ou a contagem de 1 a 10 que aprendi no judô, só conhecia um único símbolo da escrita japonesa: o hiragana “no”. Por sinal, na época, havia menos palavras oriundas do japonês de conhecimento comum, de tal modo que shoyu ou misoshiru ainda eram acompanhadas de explicação no vocabulário básico.

Assim não tinha uma ideia muito clara de como seria a língua. Tinha é claro grandes expectativas de logo começar a entender. Entretanto, tinha a consciência de que seria um caminho longo, já que estava começando do zero.

Fiquei surpreso ao descobrir que a gramática da língua japonesa era de fato bem mais simples que a do português. Os poucos ideogramas que constituíam o vocabulário inicial eram simples o bastante. Nem tudo, entretanto, era um mar de rosas: logo percebi que a contagem não seria tão fácil de aprender, por sua diversidade.

Meu primeiro grande desafio nos estudos foi devido ao fato de não poder comparecer a duas aulas seguidas, justamente as primeiras lições de escrita. Ao chegar na quarta aula e ver o quanto a turma tinha avançado, vi de cara que se não me esforçasse, não seria capaz de acompanhar o ritmo da turma. Assim, decidi dedicar os dois finais de semana após a quarta aula apenas aos estudos, ficando enclausurado em meu quarto, repetindo os exercícios.

Outro baque que senti foi quando vi na biblioteca do curso um texto literário todo escrito em japonês. Parecia, como muitos já descreveram, que tinham esmagado centenas de formigas em uma folha de papel, formando padrões ininteligíveis. Para ser sincero naquele momento, eu senti como se fosse um patamar inalcançável. Resolvi então mudar a minha perspectiva: ao invés de ter como objetivo ler algo como aquele livro, passei a me focar apenas na lição que tinha a frente. Parece uma mudança simples, mas teve impacto considerável: ao invés de eu ficar sempre encarando o topo de uma montanha, agora via diante de mim uma escada, longa, é verdade, mas que poderia ser atravessada se subisse um degrau por vez.

Outra coisa que me ajudou bastante nos estudos considero um pouco de sorte. Na época conseguir mangas e animes era apenas vagamente mais fácil que uma escavação arqueológica. Havia pouquíssimas fontes disponíveis. Resolvi rodar por todas as escolas de língua japonesa do DF em busca de algum material que tivessem em excesso que tivessem interesse em se desfazer. O esforço me rendeu 25 edições semanais de mangá, cada uma com dimensões semelhantes a uma lista telefônica.

Toda vez que voltava da universidade, gastava algum tempo folheando as páginas, mesmo que não entendesse o texto, para pelo menos tentar deduzir o conteúdo da história pelas ilustrações. Graças a isso, era sempre capaz de localizar, aqui e ali, algo que tinha estudado. Apesar de ser uma pequena recompensa, isso me mostrou que o estudo da língua realmente rendia frutos palpáveis, ao contrário, por exemplo, de cálculo e outras disciplinas exatas. Isso foi para mim um grande estímulo a prosseguir com o estudo.

Minha rotina de estudo na época basicamente consistia de três etapas: realizar todos os exercícios passados o mais rápido possível, para não esquecer o conteúdo, tentar criar alguma coisa, por mais simples que fosse e, finalmente, ler algum mangá ou ver algum anime. Esta última etapa, é claro, tinha uma finalidade mais lúdica. Mas ainda assim, eu conseguia extrair sempre uma ou duas palavras conhecidas dentro do contexto.

Revendo agora meu cotidiano, talvez meus professores me vissem como um aluno um pouco exagerado: sempre tentava participar de todas atividades e talvez perguntasse até em excesso. Nunca tive muito receio de fazer uma pergunta talvez muito simples, mas ficava impressionado ao ver que os professores também eram atentos, e sabias claramente se eu já tinha ou não perguntado sobre este ou aquele assunto antes.

E é justamente com base nestas experiências que gostaria de passar alguns conselhos aos alunos:

1)  Não tenha medo de perguntar: os professores do curso são pacientes, e preferem alunos interessados a apáticos

2)  Dedique-se nos estudos: qualquer curso universitário demanda pelo menos o mesmo tempo de estudo e dedicação em casa que em sala. O estudo de línguas, mais ainda. Para cada hora em sala, recomendo duas em casa. A grande vantagem é que, diferente de outros estudos, estas duas horas podem e devem ser intercaladas com algum tipo de conteúdo relacionado à língua que o aluno tenha interesse.

3)  Aumente as chances de contato com a língua: diferente do inglês e do espanhol, por exemplo, as chances de um aluno se deparar com a língua japonesa no cotidiano são bastante reduzidas. Assistir filmes, ouvir músicas, ou mesmo estudar sobre a cultura japonesa são estratégias válidas. A maior exposição à língua ajuda o aluno a internalizar conteúdos e se acostumar inconscientemente com a estrutura, entonação e ritmo da língua.

4)   Desenvolva interesse metalinguístico: não se limite a memorizar estruturas, mas busque sempre pensar porque as frases têm esta ou aquela formação. Da mesma forma, busque variações, experimente.

5)   Não se meça pelo desempenho de um ou outro colega. Aceite que cada um tem seu ritmo. Isso não quer dizer acomodar-se e achar que não há como avançar, mas sim tentar melhorar mesmo que um pouco a cada dia.

6)  Por último, lembre-se: o estudo da língua é extremamente honesto em relação a seus esforços: sem esforço, não há como aprender. Não há mágica.

7)  Assim, deixo meu cumprimento final: vamos nos esforçar! Ganbarô!